Apresentação




 A leitura é um instrumento de fundamental importância para a formação do individuo. No dia-a-dia, o ato de conhecer se manifesta tão natural que nós nem nos damos conta da sua complexidade. Desde cedo, os mestres nos falam da necessidade de aprender a conhecer o mundo e posteriormente da necessidade de autoconhecimento. Assim entramos na engrenagem do conhecimento do mundo, considerado real, sem colocar em pauta o que significa conhecer. Todavia à medida que nos defrontamos, na relação com o mundo, com os vários campos e formas de conhecimento, entramos num emaranhado de conceitos. Assim, este trabalho tem como objetivo destacar na obra Didascálicon: da arte de ler de Hugo de São Vitor o princípio da metodologia na concepção do saber.

Foi em meio a uma época de inúmeras transformações na história da civilização ocidental, na qual se teve início a organização das nações que fazem parte da Europa e da propagação do cristianismo sobre essa região, que Hugo de São Vitor vê a necessidade da formulação de uma metodologia sistêmica que se propunha três etapas primordiais: ensinar o aluno a estudar; o professor a ensinar e a escola a se organizar, com objetivo de conhecer as escrituras.

O mestre Vitorino vivenciou estas mudanças e apresentou a leitura como um aspecto importante para a formação da pessoa. O autor enumera três regras necessárias para a leitura: saber o que se deve ler; em que ordem se deve ler, ou seja, o que ler antes, o que ler depois e, por fim, como se deve ler.

Vale destacar aqui um trecho da obra Didascalicon de Hugo de São Vitor:



"Há quatro coisas nas quais se exerce a vida dos santos, que são como degraus pelos quais se elevam à futura perfeição. São estes:

  • o estudo, ou doutrina;
  • a meditação;
  • a oração;
  • a ação.

Há ainda uma quinta que se segue destas, que é a contemplação, que é, de certo modo, o fruto destas quatro primeiras. Na contemplação temos antecipadamente já nesta vida a futura recompensa das boas obras. Foi por isto que o salmista, falando dos preceitos de Deus e recomendando-os, logo em seguida acrescentou:

"Grande é a recompensa
para os que os observarem".
Salmo 18

Destes cinco graus que falamos, o primeiro, isto é, a leitura, pertence aos principiantes. O maior de todos, isto é, a contemplação, pertence aos perfeitos. Quanto aos intermediários, será mais perfeito aquele que os tiver subido em maior número. Em outras palavras, o primeiro, isto é, a leitura, dá a inteligência. O segundo, a meditação, fornece o conselho. O terceiro, a oração, pede. O quarto, a ação, busca. O quinto, a contemplação, encontra.

Se, portanto, lês, ou estudas, e tens por isto a inteligência e conheceste o que se deve fazer, isto já é princípio do bem, mas ainda não te será suficiente, não és perfeito ainda.

Sobe, pois, na arca do conselho, e medita como poderás realizar aquilo que aprendeste através da leitura e do estudo que deve ser feito. De fato, houve muitos que possuíram a ciência, mas poucos foram aqueles que souberam de que modo era importante saber.

O conselho do homem, porém, sem o auxílio divino, é enfermo e ineficiente. É necessário, pois, levantar-se à oração, e pedir o seu auxílio, sem o qual nenhum bem pode ser feito; isto é, a sua graça, a qual, antes que tivesses chegado até aqui para pedí-la era ela que já te iluminava, e daqui para a frente será quem haverá de dirigir os teus passos para o caminho da paz, e de cuja única boa vontade depende que sejas conduzido ao efeito da boa obra.

Resta agora para ti que te prepares para a boa ação, de tal maneira que aquilo que pedes na oração mereças receber pela obra, se Deus consigo quiser operar. Não serás obrigado, serás ajudado. Se apenas tu operares, nada realizarás; se apenas Deus operar, nada merecerás. Opere Deus para que tu possas; opera tu para que algo mereças. O caminho pelo qual se vai à vida é a boa obra, e aquele que corre por este caminho busca a vida.

Conforta-te e age virilmente. Esta via tem o seu prêmio. E quantas vezes, fatigados pelos seus trabalhos, não somos ilustrados do alto pela graça, saboreando e vendo

"quão suave é o Senhor". Salmo 33

Assim se realiza o que dissemos acima, que aquilo que a oração busca, a contemplação encontra".

Nenhum comentário:

Postar um comentário